segunda-feira

13-abril-2026 Ano 2

Hostilidade e Isolamento: como é ser mulher na gastronomia?

Entenda o porquê do ambiente gastronômico brasileiro ser tão hostil às mulheres, e como foi construída toda essa violência.
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A ex-chef Vivian Sábio lembra que quando começou a cozinhar profissionalmente era dominada por homens, e havia poucas referências femininas: “Há 23 anos não se falava de mulheres na gastronomia. As faculdades começaram como cozinha nacional executiva administrativa para homens, e depois virou cozinha internacional de alta gastronomia até chegar o nome de hoje como tecnólogo em gastronomia”, explicou. 

Essa realidade ainda persiste, o que pode ser demonstrado em dados, no mínimo, contraditórios. A Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE, mostra que 96% das cozinhas domésticas são chefiadas por mulheres (2019), mas só 7% dos restaurantes mais conceituados do País são liderados por elas (Chef’s Pencil, 2022).  

Uma outra pesquisa, o Juntas na Mesa (Stella Artois/Ipsos, 2022), expõe o quão profunda é a hostilidade às mulheres na cozinha, com 35% das mulheres tendo suas capacidades questionadas e suas criações e autorias roubadas, e 29% afirmando ter sofrido ou presenciado preconceito ou já ter cogitado mudar de profissão pela ausência de oportunidade que a gastronomia oferece.

Vivian Sábio, na época de cozinheira profissional. Foto: Erik Moretti/acervo pessoal.
Vivian Sábio e Joel Ferreira, em entrevista com a equipe de reportagem. Foto: Anaira Kito/AgenZIA 

Vivian contou que já foi discriminada diversas vezes por homens que duvidam da sua capacidade culinária, contando que teve de aprender a gestão da cozinha por conta própria, além de ser desdenhada por candidatos, que queriam ver o “chef homem” da cozinha, mesmo com ela afirmando que era a chef.  

Joel Ferreira, amigo e ex-companheiro de trabalho de Vivian, é solidário à falta de valorização que as mulheres chefs sofrem para atuar na gastronomia profissional. Mas vê alguns sinais de melhora. “Essa briga dentro da gastronomia já vem diminuindo. O homem está se conscientizando de que ele sozinho também não consegue nada”, argumentou. 

O preconceito e sua raiz 

No artigo Cozinha é lugar de mulher? Desigualdades de gênero e masculinidade em cozinhas profissionaisBianca Briguglio afirma que na sociologia, há muitos estudos que mostram que a mulher e o servo sempre cozinharam para alimentar os homens e os patrões. Ela mostra que em cozinhas profissionais, os chefs são majoritariamente homens. Isso ocorre, pois quando a mulher tenta sair da esfera doméstica, há uma hierarquia de gênero, o que faz com que ela seja reprimida e constantemente desencorajada. Ou seja, um trabalho que sempre é visto como “feminino” é dominado por homens fora do ambiente do lar.  

Segundo a pesquisadora, fala que a literatura culinária, criada no século 18, é uma invenção dos homens chefs, além de explicar que nos primeiros textos publicados, as mulheres eram tratadas como indignas de estarem na cozinha profissional. Isso mostra como tudo que está fora da esfera do lar é sempre visto como algo que não deve ser ocupado por mulheres.  

O lado profissional 

A professora e ex-chef Monica Ciriaco em entrevista online. Foto – Erik Moretti/AgenZIA 

Em entrevista à Agenzia, a professora e ex-chefe de cozinha Monica Ciriaco trouxe outros aspectos dos problemas da gastronomia: “A gente trabalha muito, o risco é muito grande e o salário não compensa, fora as humilhações, os estresses que são muito grandes, principalmente para nós mulheres”. 

A educadora também afirma que, na sua sala de aula, composta por mulheres, ainda há um pensamento muito machista, muito por conta de dar aula em uma cidade interiorana e com o pensamento, segundo ela, mais retrógrado do que na capital: “O machismo, dentro do meu ambiente, está muito mais nas mulheres do que nos homens.” 

Ela também falou sobre os estereótipos relacionados à mulher no campo gastronômico: “Eles falam que cozinhar é coisa de mulher quando a mulher cozinha pra eles em casa, para satisfazer unicamente o desejo deles”. 

 Também comentou sobre a violência sofrida e alguns riscos que ela presenciou, como ter sofrido assédio sexual e ter presenciado muitos casos de drogas no ambiente gastronômico, até chegar a um limite: “Chegou um ponto que eu já estava com 40 anos, e aos 40 anos você não consegue simplesmente mudar de profissão da noite pro dia”, lamentou.  

Para Monica, as mulheres foram educadas para aceitar esse tipo de comportamento, e nunca para reagir, o que faz com que elas não estejam preparadas para lidar com a violência que enfrentam. Mas ela alerta: “A gente precisa de ajuda. Nós, mulheres, mesmo que unidas, não somos o suficiente, porque sempre parece que os homens têm mais força, e num ambiente de cozinha é muito mais difícil”. 

Autores

  • Anaira Danis do Nascimento Kito

    Anaira Danis do Nascimento Kito Estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero com interesse na área desportiva com apreço à fotografia

  • Catarina Wanderley Sarcedo

    Estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Ama escrever e tirar fotos. Gosta muito de política, esportes e cultura

  • Erik Moretti Sabio

    Estudante de Jornalismo na Casper Líbero com grandes interesses em esportes e na cultura geek.

  • Mateus Costa

    Estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Amante das artes, interessado em esportes automobilísticos e no futebol.

  • Lucas Henrique Dias Alves Cabral

    Estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Ama escrever, principalmente poesia. Interessado por arte, cultura, música, esportes, política, etc.

  • Luciano Santos Minharro

    Luciano Santos Minharro
    - Estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Interessado em atuar na área esportiva, mais especificamente o futebol.

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Autoria Humana Exclusiva

Este conteúdo foi produzido integralmente por humanos, sem uso de IA em nenhuma etapa.

Anaira Danis do Nascimento Kito

Anaira Danis do Nascimento Kito Estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero com interesse na área desportiva com apreço à fotografia